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Cassino: A Maior praia do mundo – Trekking – 8.º dia

Cassino: A Maior praia do mundo – Trekking – 8.º dia

Último dia no Cassino. Nós estávamos ansiosos pelo fim, não vou mentir. Tudo em mim doía e eu só queria dormir em uma cama macia, acordar tarde e não ter a obrigação de andar.

Acordamos mega cedo nesse dia, queríamos terminar o quanto antes. Às 05:30 h já estávamos andando, a praia estava um breu e muito fria.

Meu pensamento era só um, avistar o muro e o Farol do Chuí… E beber uma coca cola também. Enquanto andávamos, cada um ocupado com seus próprios pensamentos, o sol começou a surgir.
Paramos para ver o sol nascer e para descansar também. Rafa começou a sentir uma dor no joelho, parecia bem forte.

Cassino

O último nascer do sol da travessia

Sol “nascido”, levantamos e continuamos nossa caminhada e não demorou muito para começarmos a ver cavaleiros, pescadores, charreteiros, cachorros, etc. Percebi que ali acabava o Cassino inóspito e isso foi confuso. Fiquei feliz porque estávamos chegando ao nosso destino e completaríamos com sucesso a travessia e triste por deixar pra trás aqueles momentos maravilhosos, silenciosos e solitários que passamos ali.

Começamos a avistar a Praia do Hermenegildo, ou Hermena como é conhecida por lá. Meu coração disparou no ritmo do jingle “Always Coca-Cola”. Chegamos na praia perguntando por um boteco e corremos ruas adentro atrás de coisas gordurosas para comer.
Os barzinhos locais eram fracos e não tinham a coxinha dos meus sonhos, mas pelo menos tinham coca cola. Sentamos em um banquinho e devoramos sacolas de salgadinhos com refrigerante.

Cassino

Praia do Hermenegildo

Muitas pessoas passavam e nos olhavam, éramos três andarilhos sujos e magros. Alguns tiveram coragem de parar e nos perguntar de onde vínhamos e para onde íamos. A resposta assustava as pessoas e elas exigiam detalhes.

Tudo muito bom, tudo muito lindo, mas tínhamos que voltar pra luta, Hermena não era o fim. Voltamos a andar e logo avistamos o Farol, mas ainda estava muito longe.

Cassino

Depois de 7 dias comendo alimentação pronta, salgadinho com Coca foi um luxo e um lixo

Mirando o farol enquanto andava eu imaginava várias coisas, um banho, trocar de roupa, tirar a bota pra todo sempre, comer um hamburguer com mais coca cola… Eu merecia um pouco de luxo, se é que podemos chamar isso de luxo.

Enfim avistamos o muro, o lugar onde nossa jornada chegaria ao fim, eu queria correr e colocar minhas mãos lá, mas eu não conseguiria fazer isso com a mochila nas costas. Somente às 14:20h chegamos aos Molhes e fazendo as contas, totalizaram 7 dias e 3 horas de travessia. Eu não tive vontade de chorar, eu não me emocionei, não sei o que houve, nenhum de nós estava emocionado. Estávamos aliviados, o fardo foi muito pesado e o sentimento que se sobressaiu foi o alívio.

Cassino

Molhes do Chuí (muro) visto do Farol do Chuí

Depois de um tempo parada ali, veio então a felicidade e na sequencia eu senti orgulho, eu estava orgulhosa de mim e dos meus amigos, nós havíamos conseguido. Não sem pagar um preço, estávamos cansados, machucados e sem lágrimas pra chorar. Mas sabíamos que com o tempo, depois de curados, só ficariam as boas lembranças e as paisagens encantadoras na memória.

Olhei então para o Farol do Chuí e minha ficha caiu, ele não estava ali na praia, ainda precisávamos andar mais um pouco. Ok, no Cassino nada é tão fácil. Depois de tirarmos algumas fotos, nos abraçarmos e gritarmos “puta que pariu” algumas vezes, resolvemos achar a entrada do Farol.

Concluímos que para chegar ao Farol teríamos que subir um barranco, pra manter aí o nível da travessia né. Pois subimos, atravessamos um terreno abandonado eeee… Demos de cara com um cachorro gigante que guardava a entrada do Farol.

Nada de pânico. Quanto mais batíamos palmas e gritávamos mais o cachorro latia e rosnava. Até que um oficial (enviado por Deus) saiu e acalmou o gigante feroz que queria nos abocanhar. Tínhamos autorização para usar e dormir no alojamento da marinha e não me fiz de rogada, tomei um banho, coloquei roupas limpas e um chinelo de dedo.

Cassino

Esse era o cão muito feroz

E ali era o fim da travessia, estávamos na pontinha do Brasil, o finalzinho. Andamos do Rio Grande até não ter mais Brasil pra andar, demos de cara com um muro, eram os Molhes da Barra do Chuí.

Se eu pudesse resumir a Praia do Cassino em poucas palavras seriam beleza e esquecimento. Talvez, por estar lá, esquecida é que ela seja tão bonita e espero que continue assim, um lugar onde a natureza reina absoluta.


Leia também:

Cassino, o início: clique aqui.
Primeiro dia de trekking: clique aqui.
Segundo dia de trekking: clique aqui.
Terceiro dia de trekking: clique aqui.
Quarto dia de trekking: clique aqui.
Quinto dia de Trekking: clique aqui.
Sexto dia de trekking: clique aqui.
Sétimo dia de trekking: clique aqui.
Oitavo dia de trekking: clique aqui.

É importante lembrar: Se você decidiu fazer uma viagem de aventura, principalmente para fora do país, a recomendação é que você faça um seguro viagem com cobertura para esportes outdoor. Clique aqui para saber mais.
  • NOTA: Se quiser pernoitar no Farol Abardão e no Farol do Chuí uma solicitação deverá ser enviada à Marinha:

    Telefone – 53 – 3233 6322 Sargento Bittencourt
    email: bittencourt@ssn-5.mar.mil.br

  • Dicas para o início do Trekking da Praia do Cassino

    • Levar protetor solar;
    • Já iniciar com 3 litros de água e torcer para ter água nos arroios;
    • Levar roupa de frio

    Mapa da Trip

    Trilha

    Nível: Extremo
    Data da trilha: 18/04/2015
    Total percorrido: 235 km

    Arquivos

    Tracklog no Wikiloc: Praia do Cassino

    Custos

    Ida

    • São Paulo x Porto Alegre R$ 178,00 – TAM
    • Porto Alegre x Rio Grande R$ 63,00 – Planalto Transportes
    • Rio Grande x Cassino – R$4,45- Circular – P09 Cassino – Noiva do Mar
    • Taxi: R$ 30,00

    Retorno

    • Chuí x Pelotas – R$ 47,35 – Viação Expresso Embaixador
    • Pelotas x Porto Alegre – R$ 46,75 – Viação Expresso Embaixador
    • Porto Alegre x São Paulo – R$ 178,00 – TAM

    Pernoite

    • Camping do Sindicato dos Rodoviários no Cassino – R$ 40,00 – (53) 3236-6013

    Sobre Gisely Bohrer

    Gisely Bohrer
    Mineira de nascimento, Vila-Velhense (canela-verde) de coração, analista de importação, estudante de Turismo, blogueira e viciada em esportes. Trekking, corrida e musculação ocupam boa parte do seu tempo livre. Começou no trekking através do Clube de Desbravadores e desde então é sua paixão. Além dos esportes, ama viajar e ler um bom livro. Vive tudo intensamente para esta vida ser suficiente.

    30 comentários

    1. Lindo relato, Gi… o alívio de chegar no Chuí é algo que nunca vamos esquecer. Que trekking! Que expedição! Que conquista!

      • Gisely Bohrer

        Nossa, escrever sobre a chegada foi difícil, o que sentimos qdo encostamos a mão no muro é difícil de colocar no papel. Foi um alívio e nossas caras de interrogação… não vamos chorar??? rsrsrsrs
        Demorou a cair a ficha, a felicidade veio bem depois. Só passando por tudo aquilo pra entender. Nunca vou esquecer o Cassino 🙂
        Saudades daquele lugar :'(

    2. Parabéns a todos vocês, acompanhei o relato desde o 1º post e, apesar de já conhecer uma parte do Cassino, me impressionei e me encantei de mais!

      Abraços e até os próximos relatos!!

    3. Gisely bom dia, gostei muito dessa aventura pelo Cassino.
      Atravessar de bicicleta é possível? Ou a areia nessa região é muito fofa? Abraço

      • Gisely Bohrer

        Oi Ígor, não é impossível, pois a areia não é fofa. Vc terá um trabalho para atravessar os arroios pois alguns parecem lagos e rios. Se vc olhar no wikiloc (site de tracklogs) só existe o meu que foi feito a pé, porém vários de bike e jeep.

        Vale a pena fazer o Cassino 🙂

        • Muito obrigado Gisely. Descobri seu site através do seu relato da trilha Petrópolis x Teresópolis, e depois disso venho aqui semanalmente.
          Você já fez todas as trilhas que eu quero fazer kkkkkkkkkkk

          • Gisely Bohrer

            Oi Ígor, gostaria de ter feito mais trilhas rsrsrs mas trabalho de segunda a sexta (CLT), então vou fazendo aos poucos 🙂
            Espero que faça todas as que fiz e mais um pouco kkkkk

    4. Cara muito lindo seu relato, acompanhei desde as primeiras postagens e ficava sempre com aquela ansiedade de saber como foi até o fim. Meus parabéns sei como deve ter sido dura todos esses dias. Realizei uma caminhada pelo Pico do Caratuva e Pico do Parana, e foram os mais perfeitos que fiz.

      • Gisely Bohrer

        Oi Guilherme, obrigada pelo retorno. O Cassino é uma travessia que tive muito prazer em escrever, pois lembro de cada detalhe sofrido rsrsrs e deixando aqui vou poder ler daqui uns anos e assim nunca vou esquecer dos perrengues 🙂
        Espero que você continue nas trilhas e faça outras ainda mais perfeitas 😀

    5. Gisely, nossa… você não ter chorado, mas eu chorei pacas, rs
      Vendo o vídeo que fizeram então, Ual!
      Que música, cenas… obrigada!
      Vou chegar lá, em novembro, e com certeza lembrarei de vocês.
      Lina

      • Gisely Bohrer

        Oi Lina, acho que nosso alívio foi tão grande que as outras emoções ficaram com vergonha de aparecer rsrsrsrs. Eu só pensava em soltar aquela mochila de 27kg no chão, deitar e não levantar até todos os machucados cicatrizarem kkkkkk

        Nem mencionei no post que minha cintura estava em carne viva né? Mas estava… o pé soltando pedaços, fora o cansaço…

        Você vai amar o Cassino, mas vai amar ainda mais se fizer com agência e puder fazer o trajeto com mochilinha de ataque, pq com a cargueira lotada é sofrimento 🙂

        Beijos e aproveite esse trekking, pq é lindo.

        Ahhh e vou mandar um SPOILER aqui… Esse ano vai ter doidera de novo, final do ano outro trekking desse “nipe”, aguardem 😀

    6. Que idéia mais doente! Fiquei doido pra tentar também haha demais a trip e o relato, parabéns pela conquista 😀

    7. Eu achei que só eu gostasse de fazer esse tipo de loucura kkkkkkkk, parabéns pelo trekking, esse foi de “responsa” hein.

      • Gisely Bohrer

        Agora que passou posso dizer que foi muito gostoso kkkkkkk Obrigada por acompanhar 😀

        • Imagino, as recordações ficam para sempre, ri demais com a “lourdinha”, me fez lembrar uma situação parecida que passei no Conjunto Marumby aqui no Paraná.

          Muito bacana mesmo Gi, vou adicionar Cassino a minha lista de expedições para realizar! kkkkkkk

          Obrigado pelo relato e boas trilhas! 🙂

    8. Olá Gisely!
      Muito bom seu relato, ajudou muito a montar minha programação pra esse trekking.
      Eu e um amigo estamos a aproximadamente um ano com a ideia de fazer esse percurso, e finalmente faremos nesse mês.
      Fiquei com uma dúvida, após passar pelo Albardão vocês só encontraram água na casinha abandonada (acampamento do 7º dia)?
      Se precisar e cia pra fazer essas travessias level hard, me avisa! 🙂

      • Gisely Bohrer

        Oi Diego, água no Cassino é sempre um ponto de interrogação. Naquele momento o ideal seria sair do Albardão com 4 litros de água, pois demoramos a achar outro arroio que não estivesse seco.

        Mas vai muito da sorte, vc pode pegar uma época que estejam todos cheios ou alguns cheios e outros vazios e até todos vazios rsrsrs. Por isso essa travessia é feita na maioria das vezes com agência e carro de apoio, pois o lugar é totalmente imprevisível. Eu espero que tenham sorte quando forem 🙂

        • Oi Gisely.
          Obrigado pelas dicas.
          Eu, um amigo (Cristiano Morales) e uma cadelinha (que nos acompanhou o caminho inteiro) terminamos a trilha ontem pela manhã.
          Sobre a água, como pegamos um temporal logo na primeira noite, e outro na quinta noite, tinha MUITA água o tempo todo, o que nos permitiu andar com pouquíssima água a partir do segundo dia.

          Resaltando alguns pontos para quem deseja fazer esse trajeto:
          – Levem muito material para pequenos curativos (band-aid a prova d’agua, gaze, esparadrapo, micropore…);
          – Levem muito dorflex, mas muito mesmo (imaginem o pior cenário para os últimos dias);
          – Dependendo das dores que você tiver, doses generosas de Gelol ou talvez de Biofenac serão bem vindas;
          – Meus pés e canelas incharam muito, então não esquecem de levar diclofenaco (nem entravam mais no tênis, ainda bem que levei calçado aberto).

    9. Vocês se expuseram ao riscos de perder a vida. Tempestades com raios e vocês acampados na praia, se dispuseram a caminhar sem a certeza conseguirem água, que coragem! Acredito que apenas dois perfis têm esse tipo de disposição: os inconsequentes e os apaixonados por aventuras. Com certeza vocês se enquadram na segunda classe. Parabéns!

      Estou iniciando nesse estilo, ainda tenho muito o que aprender e experimentar, preciso encontrar amigos com a mesma disposição. Viver intensamente, esse é o caminho.

      Quais orientações você daria para um casal de leigos belorizontinos que pretendem iniciar nesse estilo? Por onde começamos?

      • Gisely Bohrer

        Oi Vinícius, nós fomos sim sem saber muita coisa, mas não colocamos nossa vida em risco. Se percebêssemos q água era um problema, nós voltaríamos. Nunca devemos colocar a vida em risco.
        Eu comecei muito cedo, mas sempre recomendo para iniciantes hinking ou trekking em parques nacionais onde as trilhas são bem marcadas. Caso não tenha experiência alguma não pense 2 vezes antes de contratar um guia.

        abraços

    10. Parabéns pela jornada de vocês! Muito corajosos, mas principalmente valente. O percurso é doloros, mas depois sempre vem o prêmio, uma paisagem perfeita!

    11. Parabéns Gisely!
      Seu relato é inspirador.
      Nunca perca esse espírito!
      Abç

    12. Olá gisely, parabéns pela coragem e pela grande jornada!
      Este ano pretendo me preparar para a caminhada, no entanto vou tentar fazer sozinho.
      Sou morador de pelotas (cidade ao lado do cassino) e já estive na praia inúmeras vezes. Mas também sei que nenhum conhecimento te prepara pra esse tipo de situação.
      Com relação a autorização para pernoite na base da marinha, alguma informação?
      Estou aceitando qualquer dica e sugestão. E novamente, parabéns pela aventura!

      • Gisely Bohrer

        Oi Jorge, obrigada por acompanhar o relato. Sobre a autorização para pernoite tem tudo no final do post, telefone e -mail para reserva. Obrigada

    13. Oi Gisely!

      Sou de Rio Grande e moro no Cassino, várias pessoas vêm para cá para fazer este percurso, mas como vc comentou a maioria não faz este trajeto a pé, justamente porque é praticamente inabitável e se algo acontecer no caminho vc só pode contar com a sorte de encontrar pescadores ou outros desbravadores como vcs. Meu tio e meu primo acampam de vez em quando para aquela bandas, e houve uma ocasião em que eles foram de moto e a moto estragou, andaram 60km até o balneário em pleno verão, no “olho do sol”, chegaram em casa irreconhecíveis, literalmente torrados! Então imagino o quão difícil deve ter sido cumprir com o planejado, parabéns!

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